ESCUMALHA – Entrevista Douglas Germano para o Blog Bass Doom

ENTREVISTA: Douglas Germano


Joga de terno: o músico em ação (Foto: Rafael Frydman)

por Nilo Vieira

Em maio, Douglas Germano lançou seu terceiro álbum solo. Mas o sambista paulistano está na estrada há muito mais tempo do que tal número possa sugerir, e a experiência é palpável no ótimo Escumalha (disponível em CD no selo Boca de Lobo). Bastante assertivo, o compositor conversou conosco sobre o novo trabalho e suas inspirações. Não deixe de vê-lo ao vivo se puder (acompanhe a agenda aqui), e agora desça a barra aí!

Escumalha, assim como o Golpe de Vista, soa intrinsecamente ligado à tradição do samba. O lirismo do novo álbum é menos metalinguístico e mais urgente nesse aspecto, porém. Como você enxerga o samba como música de protesto na conjuntura atual do Brasil? 

Eu não tenho olhos para estas questões. Componho estimulado por coisas que me movem a fazê-lo. Desta maneira utilizo a música como uma trilha para a letra, para o “texto”. É quase uma intenção dramatúrgica e nessa dinâmica não observo o gênero. “Àgbá” se encaixa onde? Gênero? Não tem. Queria um ritmo de quina para contar aquela letra. Só. Assim fiz. Em “Marcha de Maria” queria doçura, dignidade; Em “Tempo Velho”, esperança. Só. O que me instiga é como fazer a frase “eu quase vi nada, não… eu senti por dentro…” tocar e comover. “Dá neles, Damião! E quando cansar, me chama!” idem. E para isso uso música. Só. Se ela é um xote, um funk, uma marcha búlgara, não me importa. Tudo certo.

A relação do protesto ou crítica com a música entendo ser uma opção do artista, não do gênero. O autor é quem decide sobre o que ele vai tratar em sua obra. Temos músicas engajadas em todos os gêneros realizados por aqui e o mesmo acontece com músicas que só têm a intenção de singeleza, divertimento.

No que diz respeito à forma e aos meus trabalhos que você citou apenas explico que: Em Golpe de Vista fui para estúdio sozinho. O que você ouve no disco é o mesmo que ouviria se eu pegasse o violão e lhe mostrasse uma música de maneira informal. É o meu jeito que está ali. Em Escumalha fui para estúdio com a banda. Os arranjos foram divididos entre os músicos da banda e por isto o resultado sonoro é outro e absolutamente natural no que diz respeito à formação e ao resultado sonoro consequentemente.

Como você mencionou essa divisão: algumas passagens no álbum evocam a música de candomblé/umbanda. Quem trouxe isto para o Escumalha

Não é uma divisão. É uma diferença estética entre os dois discos. Mas o meu violão está por trás em ambos. Há em Escumalha a música “Àgbá” que trata de Exu e a música “Tempo Velho”  que trata de Preto Velho, entidade da Umbanda. Talvez a utilização de atabaques e congas lhe dê essa impressão, mas de fato, não é uma evocação à música, mas uma reverência direta às divindades.


A história (sendo) escrita: capa de Escumalha (Foto: Arnon Gonçalves/Reprodução)

O trabalho dos fotógrafos Arnon GonçalvesXirumba Amorim e Rafael Frydman é citado como inspiração para o disco. Os três trabalham com personagens populares. Qual é a sua leitura (no sentido de convergências e diferenças semânticas) para o trabalho dos três, especialmente no que tange ao conceito de faces da escumalha aplicada no álbum?

Não.  O trabalho de Xirumba Amorim é que deu contornos à estética de Escumalha. Isso diz respeito ao período de composição e de construção do repertório. O trabalho de Xirumba é muito poderoso e explicita a dignidade das pessoas e situações que ele fotografou.

Eu não queria um rosto na capa. Eu não quero estetizar a pobreza, as imagens são utilizadas para direcionar o olhar para nossas próprias memórias, para dentro de casa, para os avós, para as nossas origens e cultura. Uma cara brasileira que não está na metrópole, mas nas suas beiradas sem foco nem atenção. Nesse sentido a foto de Arnon Gonçalves, que foi para a capa, é certeira: nomes sobrepostos escritos à mão sobre pedra, grafados com intenção de fé, de sorte, de saúde, desejos bons. Só a parede já seria muito bom, mas ele conseguiu registrar o momento em que mais um nome é adicionado.

No show, eu utilizo projeções numa construção ilustrativa para cada uma das músicas. As imagens são de Xirumba, Arnon e Frydman. Este último contribuiu com imagens que localizam a escumalha em outras regiões do país. Uma estética urbana que não há em Xirumba. Nesse sentido não há uma leitura, por minha parte, das convergências semânticas do trabalhos dos fotógrafos. Há uma busca, na obra de cada um, de imagens para ilustrar a narrativa de cada uma das músicas.

É interessante você ter mencionado o olhar para as nossas memórias, pois também há o resgate (ou a tentativa de) da memória coletiva em sua arte. Sei que pode não ser sua intenção, mas é curioso reparar que mesmo um disco tão contundente, de crítica social, ainda reserva respiros ao final. 

Sim. Eu queria terminar entregando alguma esperança. Não faria sentido nenhum falar da Escumalha com distanciamento. Eu falo aí de mim em princípio. Nada do que está no disco me é distante. Periférico a vida toda, escola pública, neto de lavadeira e motorista de táxi, filho de malandro do baralho, carteira assinada com treze anos, office-boy, virações, auxiliar de escritório, ritmista de escola de samba, jogador de várzea com intenção de carreira como todo moleque.

Nas pesquisas para Escumalha conversei com muita gente. Professores, filósofos, benzedeiras, estivador, jogador de várzea que recebe dinheiro pra jogar aqui e ali, mascate de estação, vendedor de vagão de trem e com muitos amigos. Pedia a eles as memórias da infância, da casa dos pais e dos avós. Vieram histórias lindas e que se assemelhavam muito às minhas. A casa, os hábitos, a fé, a comida… A vida brasileira que não encontra representação, exceto a caricata, em lugar algum. E que também é a minha, dos meus irmãos e parentes, pai e mãe, avós, etc.

O movimento do disco, na minha intenção é o seguinte: A violência inicial é uma ação para sair destes escombros onde nos encontramos soterrados. Uma vez feito isso, retomar a vida, valorizar a nossa trajetória que é muito digna e mostrar a todos que nossa própria história pode nos ensinar, basta que a observemos. Afinal já houve tanto de perder, de calar, de sangrar. Um sopro de esperança para que tudo se renove. O Brasil real é uma potência criativa vigorosa, se reinventa e sobrevive.

Fiz muita música para teatro. Em certa ocasião, minha cia. fez uma apresentação fechada, uma espécie de pré-estreia, para um senhor que é um sobrevivente de Auschwitz. Andor Stern. Pois bem, era um texto de Arrabal chamado Torre de Babel. Na última cena do espetáculo era acionado, da coxia, um mecanismo que abria um teto falso no palco de onde caíam centenas de sapatos que formavam uma pilha enorme no centro do palco. Uma referência direta ao holocausto.

Abrimos um papo com Seu Andor após a apresentação. Ele gostou, elogiou, mas no final disse o seguinte (da maneira como lembro): “Tudo bacana, mas e a esperança? Afinal eu estou aqui. Sobrevivi a isto. A esperança é fundamental…” Estávamos falando de morte para quem a venceu. Nuca mais me esqueci disto. O disco acaba com esse meu desejo de esperança. A esperança desanca a barbárie.

E como foi o processo de produção?

Durante a temporada de Golpe de Vista, os músicos da banda insistiram em ir para estúdio num eventual novo disco. A ideia era que gravássemos à vera. Estamos com um som muito orgânico e redondo depois de dois anos tocando juntos. Quando o produtor Fabio Giorgio, do selo Boca de Lobo, propôs a gravação do disco novo, falei com a turma, dividimos os arranjos e gravamos. Violão, baixo, bandolim, flauta, bateria e percussão. Fizemos pequenos complementos posteriores. Os arranjos foram divididos entre João Poleto, Henrique Araujo, Renato Enoki e do meu violão saíram as bases.

O repertório de seu show atual contém músicas inéditas também, certo? Como é seu processo como compositor?

No caso de Escumalha partiu tudo do tema. Eu listei alguns personagens e situações para as quais gostaria de compor. Ao mesmo tempo verifiquei, entre as músicas que já tinha, quais se encaixariam no discurso.”Ratapaiapatabarreno” foi feita para Marcelo Preto que a gravou em seu disco A Carne das Canções, “Insignificâncias” foi gravada por Karina Ninni e “Marcha de Maria”, composta originalmente para teatro, e “Vil Malandrão” de 2000 e 2014 respectivamente são mais velhas, mas inéditas.

E as demais foram compostas para o disco. Esse processo continua, pois eu não consegui compor para todos os temas que relacionei a tempo de ir para estúdio. Continuo trabalhando e essas músicas à medida em que ficarem prontas entrarão no repertório do show.

Nesta questão de composições para outros artistas, vale lembrar que é de sua autoria “Maria da Vila Matilde” – que ganhou gerou muita repercussão na voz de Elza Soares. A canção foi escrita especialmente para ela ou já existia? O seu processo de composição se altera quando a música é pensada para outra pessoa?

“Maria de Vila Matilde” é um acontecimento. Me rendeu até ser finalista no Grammy Latino de 2016 na categoria melhor música em língua portuguesa. Foi cantada em manifestações, virou camiseta, pichação em muro. Mas não fiz para Elza. Fiz para uma cantora de São Paulo chamada Paula Sanches. Ela faria um disco e me pediu uma inédita. O disco de Paulinha não saiu e veio o pedido para enviar música para Elza.

Eu gosto muito de compor para os intérpretes. É um exercício muito estimulante tentar colocar em uma voz com, características específicas, uma história que eu gostaria de contar e que resulte de maneira orgânica. Procuro me inteirar da produção, qual será o mote do disco, qual o discurso do intérprete, arregimentação etc. Sem falar que geralmente as coisas têm prazos específicos que você precisa cumprir. É um bom exercício para o ofício.

Você poderia citar temas, situações ou personagens que não conseguiu contemplar nas composições do Escumalha? 

Camelô, benzedeira, estivador, apontador de bicho, carroceiro, doméstica… encaminhadas, mas não concluídas.

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