“Credo” de Douglas Germano – A catequese da cantora do milênio

14/12/2018 | domtotal.com

A catequese da cantora do milênio

Em meio a tanto discurso de ódio, sobretudo no meio religioso, fica difícil acreditar que o amor seja, de fato, algo que as religiões ensinam e pregam como sendo o valor principal.

“Credo” é uma verdadeira profissão de fé e Elza Soares é uma legítima catequista, mesmo que não tenha intenção de sê-lo. (Karina Zambrana/ Fotos Públicas)

Por Gustavo Ribeiro*

Elza Soares é daquelas vozes que ressoam em nós cada nota e cada sentimento, porque uma coisa que não falta em suas interpretações é sentimento. Ninguém sai ileso depois de ouvir suas interpretações.

Depois do espetacular “A Mulher do Fim do Mundo” (2015), Elza nos presenteia com “Deus é Mulher” (2018), este álbum que nos rasga ao meio ao nos colocar questões tão nossas e que ao mesmo tempo são tão mal resolvidas que ainda carregamos como sociedade brasileira e que na voz da “cantora do milênio” se transformam em um aguilhão a nos fisgar e nos questionar profundamente.

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A proposta deste artigo é nos conectar com a música “Credo”, composição de Douglas Germano, que na voz de Elza ganha contornos e se transforma numa verdadeira “profissão de fé”. Como teólogo quero fazer uma breve reflexão de alguns versos e extrair dali algo que nos fale do modo como temos vivido e transmitido a fé em contraste ao deveríamos ser e viver. Não é minha preocupação que atinjamos a ideia central do compositor, mas que consigamos fazer uma experiência a partir da voz dissonante de Elza, para refletir e rezar.

  •  “Minha fé quem faz sou eu, não preciso que ninguém me guie, não preciso que ninguém me diga o que posso e o que não”

Elza canta a possibilidade da vivência da fé sem a exigência de uma certa institucionalização, sobretudo nestes tempos de personalização da fé em certas figuras carismáticas.

Estas lideranças que se arrogam como fiscais da fé alheia e se colocam, muitas vezes, como portadoras do direito de decidir o sim e o não dos fiéis, ignorando a consciência crítica e a capacidade de tomar decisões que está na base da experiência de fé, a liberdade.

  • “O amor é o deus que não cabe na religião”

Em meio a tanto discurso de ódio, sobretudo no meio religioso, fica difícil acreditar que o amor seja, de fato, algo que as religiões ensinam e pregam como sendo o valor principal. Quando um cristão defende um torturador ou prega a pena de morte como solução para a violência no Brasil, ele se lembra do seu Cristo que foi torturado e morto, por que “bandido bom é bandido morto”?

  • “Credo, credo, sai pra lá com essa doutrinação”

Neste verso a palavra “credo” demonstra nojo, repulsa ao modo como a religião é vivida e transmitida. Nestes tempos em que se vive uma crise de transmissão da fé católica, a doutrinação, ou seja, a utilização das fórmulas prontas moralizantes e decoráveis são utilizadas para alienar os fiéis e impedir que eles pensem e ajam no interior das Igrejas com autonomia e criticidade, sendo também eles construtores da eclesialidade e da própria fé. A fé não é uma herança, mas uma experiência.

  • “Credo, credo, eu não quero o medo me dando sermão”

Aqui, também, a palavra “credo” representa repulsa e não crença, e é nojo da teologia do medo utilizada tantas vezes para alienar por meio do medo, para manipular e dominar. Esta que era uma prática medieval e perdurou ao longo dos séculos, sobrevivendo até hoje e sendo utilizada, agora, sobretudo nas igrejas neopentecostais e nos ramos mais carismáticos e/ou conservadores do catolicismo está associado, muitas vezes, à teologia da prosperidade, às arrecadações de grandes volumes de dinheiro, que como sabemos não são revertidas para o benefício dos fiéis e da comunidade, mas para o bel prazer e usufruto dos “super-pregadores”.

  • “Credo, credo, falta sim nesta tua oração”

Aqui, a palavra “credo” aparece no sentido de crença, e fala, justamente, da fé que falta nas orações, prédicas e liturgias. Do esvaziamento do Sagrado e da superficialidade que o culto se transformou, preterindo da experiência mistagógica e passando a momentos de extrema manipulação da subjetividade.

  • “A mentira conheço tão bem, não preciso que ninguém me aponte, o castigo que serve só para vender o perdão”

A teologia do medo é perigosa, porque ela manipula o fiel, dando-lhe sempre a ideia de que Deus é vingativo e que qualquer deslize será punido e contabilizado. Ou que se o fiel não contribuir financeiramente com “a obra” ele não será abençoado, porque o “Senhor ama quem dá com alegria”. Logo, se você não possui recursos financeiros para “abastecer a obra” sua fé é pequena e a bênção não virá. A mentira e o castigo se convertem em instrumentos de tortura religiosa para fins torpes e vis, para a manutenção do poder exercido pelas lideranças, que extorquem os fiéis com uma falsa imagem de Deus.

  • “Mas confesso qual é meu temor, essa luz que ofusca limite, essa gente que olha pro céu e tropeça no chão”

E aqui, a conclusão magistral para a nossa reflexão: a religião que se desvincula das realidades terrenas perde sua razão de ser. Qual o sentido de uma fé que vive sempre na “perfeição” do céu, mas se esquece do irmão que passa fome, da irmã que é violentada num relacionamento abusivo, da travesti que é morta por ódio, do homossexual expulso de casa pelos pais da Pastoral Familiar, do jovem negro chacinado na periferia por agentes da segurança pública? Uma fé que se ancorou nas alturas, mas se esqueceu dos pobres, com certeza é uma fé que não fala de Deus, mas de egos inflados; uma fé que não conduz ao mistério, mas que leva ao egoísmo e ao o pior e o maior de todos os pecados, a omissão.

A voz potente de Elza Soares evoca um mundo de muitas privações e violências, ao cantar ela compõe duas “escrevivências”, sua realidade dissonante ecoando e traduzindo a realidade brasileira, sobretudo das mulheres negras, daquelas que estão na base da pirâmide social e que “fez e faz história, segurando esse país no braço”.

“Credo” é uma verdadeira profissão de fé e Elza Soares é uma legítima catequista, mesmo que não tenha intenção de sê-lo.

O álbum “Deus é Mulher” é uma necessária provocação nestes tempos de ódio. É uma excelente ideia escutá-lo, procurando purificar nossa fé, mudando as atitudes. Seria bom que escutássemos as músicas lendo os Evangelhos; acho que seria um exercício interessante para concluir este advento, e, assim, chegar ao Natal do Senhor com o coração livre de todas as nossas hipocrisias.

*Gustavo Ribeiro é Mineiro de São Vicente de Minas, residente, por ora, em Belo Horizonte. É Bacharel em Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino; Pós-graduando em Gerenciamento de Projetos pela PUC Minas. Atua como Coordenador de Pastoral do Centro Franciscano de Defesa de Direitos e Coordenador Pedagógico da Rede Educafro Minas. E vive na tentativa de ser poeta, mas isto só quando sobra tempo, e quase nunca sobra.

Link Direto: http://domtotal.com/noticia/1317158/2018/12/a-catequese-da-cantora-do-milenio/

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