Crítica | por Gabriela Frias | para o site SPdeMúsica

Golpe contra golpe: o samba resistente de Douglas Germano

“Golpe de vista” é expressão bastante usada no futebol, naquele momento em que o goleiro, percebendo que o chute do adversário vai para fora das extremidades do campo, não se move e apenas acompanha a bola com os olhos. O último disco do compositor paulista Douglas Germano, lançado em setembro deste ano, carrega a expressão, tanto no nome quanto nas suas composições. Douglas é um cara do samba. Desde a infância, experienciou em sua própria casa uma espécie de primeira escola musical, onde, por influência de seu pai, percussionista, teve contato com o gênero ― como contou aqui. Nos anos 80, tocou bateria na Nenê de Vila Matilde; em 1991, teve uma composição sua gravada pelo grupo Fundo de Quintal, “Vida Alheia”. Percussionista, violonista e cavaquinista, Douglas tem outros dois discos gravados: o primeiro, Duo Moviola – O Retrato do Artista Quando Pede, lançado em 2009 em parceria com Kiko Dinucci; e Orí, de 2011.  Em contraste com modelos pasteurizados lançados pela indústria, Germano traça em Golpe de Vista um estilo muito próprio de fazer e pensar o samba.

Músico independente, Douglas define seu disco como “de autor”, em que as canções são gravadas do modo como foram compostas e pensadas originalmente pelo compositor, sem produções rebuscadas ou uma “direção artística”. A instrumentação crua reforça essa idéia: violão, cavaquinho e uma caixinha de fósforos como base em todas as canções, com breves aparições de trombone, sax e flauta, além de um coro lírico em algumas faixas. O disco, no total, tem cerca de 25 minutos de duração, com a maioria das canções não ultrapassando os três minutos e apresentadas de maneira muito direta, sem repetições de refrão ou solos instrumentais ― como se desejasse dar o recado.

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“Golpe de vista”, a primeira, já avisa que o que ouviremos daqui pra frente não será só mais um disco de samba: as palmas, comuns no gênero, são interrompidas por um acorde assertivo do violão de Douglas, que ressoa e dá início à canção, juntando-se depois ao cavaquinho e à caixinha de fósforos. Assim como no restante do disco, a canção não é o que se espera do samba: não é de lamento nem serve pra roda, pelo contrário. Os três instrumentos, junto com o canto de Germano e a letra, anunciam o estranhamento e as tensões sociais que as canções desenvolvem ao decorrer do disco. O samba será provocativo, de atormentar, direto e até mesmo violento ― não pede pra entrar. Como um golpe de vista, ele acontece na espontaneidade e no improviso, do jeito que dá, com “as armas que se tem a mão” (palavras do próprio Douglas aqui). Isso se nota no seleto arranjo de instrumentos tradicionais do samba de beira de campo, ficando mais claro a cada nova narrativa que entra no disco. Além do mais, o que será apresentado pensa, tem autonomia e manda na pena do sambista. É um samba que surge pela própria necessidade latente de existir, e que encontra no compositor um caminho para acontecer, e não o contrário. “Golpe de vista” é o que corre nas veias daquele que joga com raça ― no futebol ou não.

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“Guia cruzada”, segunda canção do disco, narra o conflito entre um sambista de escola tradicional e este outro “samba” que tem visibilidade na televisão, adotado pela gente de classe mais rica ― mas apenas em fevereiro. Na resistência a esse processo de mercantilização do samba, o sambista conta com dois orixás do candomblé: Xangô e Ogum, que se torna Xogum Guia Cruzada; a terceira canção, Maria de Vila Matilde ― que rendeu a Douglas e a Elza Soares, sua intérprete mais famosa, o Prêmio Multishow de Melhor Canção do Ano e indicação ao Grammy de Melhor Canção de Língua Portuguesa ― retrata a violência doméstica pela qual muitas mulheres são submetidas ainda hoje. Maria, no entanto, enfrenta e não baixa o tom. Ligando 180, denuncia seu agressor; “ISO 9000” segue a linha do humor. A personagem ironiza a divisão de trabalho na composição de um samba normativo que se encaixaria nos “padrões de qualidade” do selo. Seguindo um modo de produção industrial, precarizado e mal pago, alcança um resultado satisfatório dentro de um lugar-comum do samba ―  o “laiá laiá laiá” caricaturizado do início da canção reforça essa idéia; “Mourão que não cai” e “Canção pra ninar Oxum” mostram mais uma vez a ligação forte entre o samba do disco e as religiões afro-brasileiras, ambos próximos pela marginalidade; “Pela Madrugada” conta sobre a vida vivida no fio da navalha e na beira do abismo, rasgadas de incertezas quanto ao futuro, na qual o samba se mostra como a única saída para as agonias, enquanto se espera o dia raiar; como em todo fim de carnaval, “Quarta-feira de cinzas” fala sobre a separação do sambista e de sua musa, que se reencontrarão no botequim;  “You/SA”, com a letra mais rebuscada de todo o disco, traça uma crítica aguda ao fenômeno do “gerenciamento administrativo” da vida ― impossível não lembrar, aqui, de Trump e Dória no campo político. Nessa canção o coro tem papel fundamental, como se tentasse denunciar aos quatro cantos o cinismo e o vazio deste tipo de postura “polida” e engomada da cabeça aos pés, tendo, ao final, a voz literalmente silenciada; “Zeirô, Zeirô” é a história de Jesus Cristo, camisa 33 e jogador exímio, leva a culpa por uma falha coletiva e é morto em linchamento na Vila do Calvário.

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Na penúltima canção, há o retrato preciso de um “Cansaço” frente a tanta miséria e injustiça. Remete-nos à desilusão de uma parte da esquerda no pós-impeachment com a derrocada total do projeto lulista e o avanço conservador: “Vendo tudo terminar/Sem nem ter começado/Sem nem ter resistido/Sem sequer um passado/E o futuro guardado/Com quem quer nos guiar”. E é, por fim, em “Lama”, que o disco termina onde quer começar. A ideia lançada na primeira canção se amarra na última faixa: “Um samba que fale das coisas do mundo/Um samba que ninguém precisa explicar”, feito da lama, através das mãos calejadas que há por aí, no improviso e na espontaneidade da caixinha de fósforo e do futebol de várzea. E é através desse samba que histórias reais são contadas; cujas dores e cicatrizes de verdade se atinam em uma forma que molda, que quebra, mas que nunca se acaba. É pela simplicidade dos que não tem vez que a crítica elaborada pelo samba de Douglas Germano resiste.

Golpe de Vista é, agora, um dos indicados ao prêmio de Melhor Disco do Ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte. O disco pode ser baixado gratuitamente pelo site do compositor. Douglas Germano se apresentará nesta terça-feira, 29, na Galeria Olido e no próximo sábado, dia 3 de dezembro, no Centro Cultural São Paulo, às 19h.

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