Entrevista para Álbum Itaú Cultural | por Itamar Dantas

Samba de atormentar

Em “Golpe de Vista”, Douglas Germano narra a periferia, o samba, a religião

texto Itamar Dantas

Imagem de capa do disco “Golpe de Vista”, de Douglas Germano. Foto: Arnon Gonçalves

Douglas Germano lança o segundo disco solo da carreira, Golpe de Vista. No álbum, reúne composições feitas ao longo de sua trajetória embaladas por seu violão, cavaquinho, voz e caixa de fósforo primordialmente. Com as armas que têm à mão, o músico divide suas visões de mundo em letras engajadas, que tratam da violência contra a mulher (“Maria de Vila Matilde”, registrada também por Elza Soares em seu A Mulher do Fim do Mundo, de 2015), do exagero das pessoas com relação ao trabalho (“ISO 9000” e “You S/A”) e da gana do brasileiro em lidar com as adversidades, normalmente com metáforas a uma das paixões do compositor, o futebol.

Pedro Moreira (trombone) e João Poleto (sax e flauta) também engrossam o coro dos instrumentos, além do coral de vozes de Dênia Campos, Tânia Viana, Márcia Fernandes, MariMari, Diego Maurílio, Negravat e Rai. Sem repetições de refrão ou estrofe, a mensagem é direta. No samba que dá título ao álbum, Douglas Germano defende as diretrizes de sua música, levando em conta o jeito brasileiro de lidar com as adversidades e as desigualdades no Brasil. Em relação à composição, ele diz: “Tudo na batalha, tudo no limite. Pouco espaço para erro etc. Como diz o grande historiador Luiz Antonio Simas, nossa festa é na fresta. O que nos sobra é a fresta sem dúvida e é dela que saem as grandes transformações. Sempre foi assim. Desde que esse país foi inventado em cartório, como dizia Darcy”.

Apesar de ser o segundo disco de sua discografia solo, Douglas Germano é compositor e músico atuante na cena paulistana desde o início dos anos 1990. Formado batuqueiro na escola de samba Nenê de Vila Matilde, Germano atuou como músico em peças de teatro em espetáculos como O Mistério do Fundo do Pote, de Ilo Krugli, pela Cia. Teatro Vento Forte em 1991, e Torre de Babel de Arrabal, com direção de Paulo Fabiano pela Cia. Teatro X em 1994. Em 1995, compôs e dirigiu a trilha musical do espetáculo seguinte da Cia. Teatro X: Zumbi. Em 2004, integrou o Bando Afro Macarrônico, que se apresentava às quartas-feiras no Bar Ó do Borogodó ao lado de Kiko Dinucci. E, em 2011, lançou seu primeiro disco solo, Orí.

Em entrevista ao Álbum, o compositor e intérprete fala do novo álbum e comenta algumas de suas composições.

ÁLBUM – Foi um período longo entre a divulgação das primeiras faixas e o lançamento do disco, certo? Como se deu esse processo de produção do álbum?

DOUGLAS GERMANO – Foi longo. As idas para estúdio sempre estiveram associadas às possibilidades de reserva financeira e de tempo. Depois de um longo período em um estúdio de design gráfico (minha profissão desde os 16 anos), peguei o que sobrou da rescisão contratual e terminei o disco. Para a prensagem ainda contei com a contribuição de um grande amigo.

– Em Golpe de Vista você é didático nas bases do seu samba. Apresenta como metáforas as estratégias de um time para ganhar um jogo de futebol: o juiz na gaveta, o reserva que aquece faltando cinco minutos para acabar um jogo… Tem aí uma metáfora do próprio jeito do brasileiro de lidar com as adversidades?

DOUGLAS GERMANO – Ah, sem dúvida! E que também é o meu! Tudo na batalha, tudo no limite. Pouco espaço para erro etc. Como diz o grande historiador Luiz Antonio Simas, “nossa festa é na fresta”. O que nos sobra é a fresta sem dúvida e é dela que saem as grandes transformações. Sempre foi assim. Desde que esse país foi inventado em cartório, como dizia Darcy.

– Você apresenta elementos das religiões afro-brasileiras em suas músicas. Essas religiões ajudaram a criar uma escola de composição no Brasil, desde Dorival Caymmi a Baden Powell, João da Baiana, João Bosco, Paulo César Pinheiro. Em São Paulo, persiste com você Kiko Dinucci e Eduardo Gudin, entre outros compositores. Como você avalia essa relação das religiões afro-brasileiras com o samba no Brasil?

DOUGLAS GERMANO – É intrínseca. Se você considerar só as questões relacionadas às situações já largamente registradas sobre os sambas que aconteciam “escondidos” na casa da famosa Tia Ciata, já terá um bom material. Mas certamente a história não começa aí, pois na Bahia já havia coisa similar. E, em outra análise, o toque do tamborim no samba é muito, mas muito, aproximado do toque de agogô utilizado para exu. Acho sinceramente que o candomblé e os orixás já estavam na estrutura do samba bem antes dos afro-sambas de Baden e Vinicius. As coisas que Vinicius escreveu nos afro-sambas são uma invenção da cabeça dele.

You S/A traz a figura da pessoa que vive para o trabalho, canção que sofre uma identificação forte em uma cidade como São Paulo. Você acredita que esses valores estão invertidos e é possível contorná-los?

DOUGLAS GERMANO – Estão invertidos. É possível contorná-los. Leva tempo. Tudo que envolve capital leva tempo para ser transformado especialmente se a transformação for contra os interesses do capital. Mas o primeiro passo é colocar a discussão na mesa. Eu e Everaldo colocamos “You S/A” na baixela e servimos. Vamos ver o que virá. E no disco há também “Isso 9000”, que trata do mesmo tema. Com humor, mas é o mesmo tema.

Zeirô! Zeirô! foi composta a partir de uma imagem estática de um jogo de futebol. Para você foi uma novidade esse processo de composição? A história veio rápida ou houve um processo diferente para a construção da letra?

DOUGLAS GERMANO – Não. Não é novidade. A imagem é extremamente importante para mim. Muitas vezes fotografo coisas durante o processo de algum trabalho. No meu site, publiquei algumas imagens que produzi enquanto levantava Golpe de Vista. São imagens em baixa velocidade pelas ruas da cidade. Sempre crio imagens involuntariamente para as situações das composições. Mas o processo de “Zeirô, Zeirô!!!” foi lento. Levei uns 45 dias trabalhando o texto. Fiquei muito tempo para decidir se seria suficiente colocar Madalena como Leninha e Verônica como Verô… Quem seria o apóstolo que atrasaria a bola para Jesus… Eu sabia que não seria Judas, mas até chegar em Pedro, vixe… Mas foi bom esse processo todo!

Link direto: http://albumitaucultural.org.br/notas/samba-de-atormentar/

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