O samba invocado de Douglas Germano no site “O Cafezinho”

O samba invocado de Douglas Germano em seu novo disco, “Golpe de Vista”

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Por Bernardo Oliveira*, editor de música do Cafezinho.
Foto de capa: Arnon Gonçalves

Douglas Germano é uma expressão incontornável, até mesmo necessária, na música brasileira de hoje. Não somente por desenvolver um trabalho musical rico em ideias no plano dos arranjos e dos timbres — um disco de samba que mexe com timbres! — mas pelo traço de simplicidade, originalidade e precisão que atravessa suas composições. Trabalhadas a partir de um vasto repertório de referências, seus sambas falam do ponto de vista daquele tom invocado dos afrosambas de Baden Powell e dos sambas épicos de PC Pinheiro, incorporando também o samba de breque, o “sincopado”, o batuque de santo, o pagode, a cidade, os personagens, o futebol. Em uma articulação repleta de inflexões e referências sutis, evoca poder suficiente para abalar o perceptível engessamento dos modos de compor e tocar o samba no Brasil. Dessa doença, ocasionada em parte pelo oportunismo mercadológico, mas também pela quimera do “samba de raiz”, Germano não padece. Compositor habilidoso, percussionista, violonista, cavaquinista e intérprete eficaz de suas próprias canções, opera a música à semelhança de um estilingue: como um elástico, puxa pela memória uma miríade sonora fortemente marcada pela cultura do samba, da malandragem e da luta política, para logo lançar a música a um futuro que insiste e que não tarda.

O primeiro registro como compositor surgiu em 1991, quando o Fundo de Quintal gravou sua parceria com Carica, “Vida Alheia” para o álbum É aí que quebra a Rocha. Percussionista criado nas fileiras da Nenê da Vila Matilde, foi um dos pontas de lança do Mutirão do Samba, movimento de compositores que renovou o samba paulistano no final dos anos 90. Participou do Bando Afromacarrônico com Kiko Dinucci entre 2005 e 2008, cumprindo uma temporada memorável no bar paulistano Ó do Borogodó — mais tarde, Dinucci gravaria algumas de suas músicas com o Metá Metá, entre as quais se destacariam “Obá Iná”, “Oranian” (com Dinucci) e a aclamada “Vias de Fato” (com Edu Batata e Dinucci). Juçara Marçal gravou “Damião” (com Everaldo F. da Silva) e “Canção pra ninar Oxum” no clássico Encarnado (2014) e, recentemente, sua “Maria da Vila Matilde”, uma canção que denuncia a violência contra a mulher, foi selecionada para integrar o repertório do extraordinário álbum de Elza Soares, A múlher do fim do mundoGolpe de Vista, seu segundo disco, vem na sequência de O retrato do artista quando pede (2009) —  gravado com Dinucci no Duo Moviola — e de Orí (2011), lançado apenas em formato digital, concentrando um material condizente com seu repertório e ideias sobre samba, percussão e harmonia.

Golpe de Vista é trabalho afirmativo e de afirmação, de luta e de festa. Germano enuncia os sins e os nãos do “seu samba”: “Meu samba não é de lamento, é muito mais de atormentar”, “Meu samba é ruim da cabeça, meu samba até manca pra andar”, “Meu samba não vale o que pesa, meu samba não pesa o que dá. Meu samba é caminho sem volta, e a volta é o mundo a girar…” O samba que tira e que dá, que leva e que traz (mas não é leva-e-traz), que gira e que ressucita a malandragem através de uma sensibilidade aguçada para tudo o que acontece à sua volta. Mas que seleciona cuidadosamente seu assunto, sua matéria de expressão a partir de escolhas eficazes: a jogada entre a caixinha de fósforo e do afoxé, o coro forte, o cavaquinho cortando o vaivém do violão: o samba em movimento. Golpe de Vista não se resume, assim, a um disco “de samba”, mas o retrato possível de um compositor quando se desloca, deixando a zaga forte do conservadorismo para trás.

A seguir, o papo que Germano bateu com o Cafezinho por email sobre samba, política, cultura, sua trajetória e sobre o Golpe de Vista. (B.O.)

OUÇA O DISCO

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Tenho a impressão de que você é, acima de tudo, compositor, certo? Mas quando fui escutar o disco, descobri um multi-instrumentista original…
Sim. Sou compositor. Não sou um instrumentista e não tenho pretensões com o canto. Meus instrumentos estão à serviço da minha composição. Dificilmente me apresento acompanhando outros repertórios. Já fiz isso muito quando era adolescente. Hoje só me apresento ou participo de situações onde toco minhas músicas.

Como você chegou na música? Quais suas influências, musicais e não-musicais?
Minhas influências são muitas. Desde o funk dos anos 80 como a banda Zapp, por exemplo, passando por Duke Ellington, Domênico Scarlatti, Brahms, Mozart, Noel, Bira e Catoni, Romildo e Toninho, bateria de escola de samba, Francis Hime, Gilberto Gil, João Gilberto, o carnaval, o futebol, a linha de trem de subúrbio, João Antônio, Fausto Wolff, Camus, Rubem Fonseca, seu Nenê, Ruy Weber… É muita coisa, muitas pessoas. E há as músicas que sozinhas fizeram reviravoltas como “Oração de Outono” de Paulinho da Viola, “A Lacrimosa” do aluno do Mozart, “Choro pro Pilger” de Maurício Carrilho, “A Roda” de Gil… muita coisa, letra de Aldir, PC Pinheiro, Chico, Elizeth, Elis, Elza, Leny Andrade, uma tabela Zico, Adílio, Ratos e urubus de Joãozinho 30, enfim o Brasil é um assombro pra inspirar.

Em 91 você emplacou uma composição em um disco do Fundo de Quintal, “Vida Alheia”, em parceria com Carica. Por favor, conte um pouco sobre essa história.
Somos contemporâneos e amigos: Eu, Luizinho SP, Carica, Miltinho Conceição, Soró, Paquera, já falecido. Compunhamos muito. Sozinhos ou em parceria. Carica apresentou a música para o Arlindo Cruz na quadra da Camisa Verde e Branco que era, à época, onde essa rapaziada se reunia. Especialmente aos sábados, no “Butiquim do Camisa”. Arlindo gostou e o Fundo de Quintal gravou.

A temporada em que você tocou no Ó do Borogodó [bar de São Paulo] com o Bando AfroMacarrônico foi decisiva para sua forma de compor e pensar música?
Não. Fiz parte do Bando AfroMacarrônico a partir de 2005 ou 2006 até o fim das noites no Ó do Borogodó. Componho desde a segunda metade da década de 1980.

Sim, mas pergunto por conta de uma declaração que você deu ao site Vermelho: “Se virou é porque as pessoas gravam, cantam e falam. Eu fico feliz pra caramba. E o Ó do Borogodó é um dos responsáveis por isso.”
Ah, sim!!! Nesse sentido, absolutamente. O Ó do Borogodó é um oásis. E não só para nós, mas para todos os músicos que por lá passaram ou ainda tocam. É um espaço de liberdade absoluta, absoluta! Você entra lá e faz tua música. E o público, de maneira geral, sabe que irá lá para ouvir coisas diferentes. O Ó do Borogodó não é um bar com música ao vivo, é um bar de artistas, de gente que pensa música e lá expõe essas ideias. Há músicos geniais na lista dos que tocaram e tocam lá.

Você parece um compositor prolífico. Por que cinco anos entre Orí e Golpe de Vista?
Dinheiro para gravar. Tenho muita coisa e continuo fazendo, mas ir para estúdio demanda uma estrutura que ainda não possuo, mas que estou trabalhando para conseguir. Se acontecer, ao menos um disco por ano, seria possível.

Um disco por ano seria ótimo para os que acompanham seu trabalho. Você começou a compor na década de 80, quando a indústria fonográfica tinha um papel preponderante na produção musical. Como você percebe a situação do artista, sobretudo do compositor, atualmente?
Do ponto de vista financeiro, a mesma. Mas esses tempos de redes possibilitam que eu, um compositor, produza e espalhe o trabalho por toda parte. Isso era impensável. E o processo se alterou para esta fórmulazinha básica: grava, espalha na rede e, a partir da repercussão, você faz shows e neles vende o disco. É assim. Pouca gente põe disco em loja. Vende mesmo nos shows e no máximo nas redes de streaming.

Falemos do disco: por que “Golpe de vista”?
Porque é uma ação solitária que depende de poucos ou nenhum instrumento. Fração de segundo. Depende de posicionamento e visão do lance. Como um goleiro, um motorista. É se defender com as armas que se tem à mão. No meu caso, o violão, as composições como as toco e canto e a caixa de fósforo.

A sonoridade do disco é muito particular em relação ao samba que é produzido hoje, sobretudo do ponto de vista da percussão. Como foi a concepção do álbum? Como você chegou nessa sonoridade?
Eu quis, em Golpe de Vista, registrar minha forma. Quando você manda música para um intérprete, não participa da concepção estética, etc. É é bom que seja assim. É surpreendente ouvir as leituras que fazem de suas composições. Golpe de Vista é um disco de compositor, portanto eu não poderia preenchê-lo com arranjos, introduções, interlúdios. Quis fazê-lo registrando as música do jeito que as toco e canto e com pequenas ampliações que tenho na cabeça que contribuem mais para a “dramaturgia” que para a estrutura musical. Como os surdos e o cavaquinho com arco de violoncelo que utilizei em “Zeirô, Zeirô!!!”. A caixa de fósforos é um complemento para a batucada que, de fato, está no violão. É um hábito. Sou fumante e sempre andei com uma caixa de fósforos no bolso ao invés do isqueiro. Exatamente pela possibilidade de batucar esperando um ônibus na madrugada.

Cavaquinho com arco de violoncelo é uma ideia sensacional! Você considera sua música “experimental”, no sentido de uma busca por outras sonoridades?
Não. Não tem experiência. Estou na casa dos 50 anos, Bernardo. Já toquei muito, compus e principalmente ouvi muita coisa de todo tipo. Isso formou minha cabeça e dela saem os sons para cada composição. Estudei violoncelo. A inspiração para utilizar o cavaquinho com arco é o tango de Piazzolla e a forma como ele desenha o violino em sua música. Aquilo tem uma dramaticidade maravilhosa. Me apropriei.

“You S/A” é um dos destaques do disco. Como pintou essa composição? Pergunto porque a letra parece um tanto misteriosa. E o final, inesperado: qual a ideia por trás desse final?
Essa música trata dessa onda relativamente recente dos grandes mentores do “gerenciamento, otimização do capital humano”. São Paulo é uma cidade onde as pessoas pensam no trabalho primeiro e no resto depois. E a palavra resto é proposital. A vida vira um resto. A pessoa sai de férias e se sente mal, deslocado, pois não está habituado a ter nada pra fazer ou só ter que cuidar de si. É uma deformação da pessoa física em pessoa jurídica. E há os mentores citados com suas palestras que no fundo são uma doutrinação dos empregados em favor da empresa. “You S/A” é isso. Você sociedade anônima. Homem com CNPJ ao invés de CPF. A letra é de Everaldo F. Silva, o mesmo parceiro em “Damião”. Nos meus trabalhos sempre haverá música nossa.

São Paulo é uma cidade onde as pessoas pensam no trabalho primeiro e no resto depois. E a palavra resto é proposital. A vida vira um resto.

Quem é “Maria da Vila Matilde”? Essa música na voz de Elza ganha um sentido totalmente particular, pois ela assumiu esse assunto algumas vezes… 
Essa Maria é minha mãe. Penha e Vila Matilde são bairros vizinhos em São Paulo. Dentro da Escola de Samba Nenê de Vila Matilde foi onde vi, pela primeira vez, exemplos de poder feminino. Dessa equação fiz a música.

Sua mãe? Você se importaria de falar um pouco mais sobre isso? Que exemplos de poder feminino foram esses?
Minha mãe. Não sei bem o que dizer. É minha mãe. E ela sofreu violência doméstica. Isso destruiu completamente minha família que hoje é completamente fragmentada no estado de São Paulo. Não há Natal com todos, aquelas coisas todas, não há.

Exemplos de poder feminino podem ser observados em qualquer quadra de escola de samba. Basta você chegar num domingo de ensaio ali por volta da 17h, você verá, invariavelmente, a ala das baianas tomando um chazinho com bolo e dando puxão de orelha e moleque da bateria que fez alguma trapalhada, em diretor de harmonia que fez correr no ensaio passado, no cantor que não cantou tal samba, no carnavalesco pra não pesar o costeiro ou o chapéu etc. E são ouvidas. Se pede benção a elas. É por aí. Isso tudo se pode observar hoje ainda. Comigo aconteceu dentro da Nenê lá pra 82, 83…

Seu pai, Seu Germano, parece ter sido uma grande influência. Ele era percussionista? Li em uma entrevista que você também cita Armando da Mangueira como influência…
Ele era percussionista de conjuntos de baile. Nos anos 60 era aquele formato Originais do Samba. E o crooner dos conjuntos era Armando da Mangueira. Versador imbatível, cantor e autor de vários sambas de enredo da Nenê de Vila Matilde. Por conta dessa proximidade de meu pai com Armando é que fui parar na Nenê. Agradeço muito! Meu pai é o que se convencionou chamar “malandro romântico”. Meu pai está registrado nas páginas de João Antônio. Minha infância foi sustentada com dinheiro de jogo. Sinuca, baralho. Nunca faltou nada em casa… (risos)

Fale-nos um pouco sobre o disco O retrato do artista quando pede (2009), que você gravou com o Kiko Dinucci no Duo Moviola.
Duas crianças curiosas e cheias de ideia trancados num estúdio com tampas de panela, violões, baldes etc.

Duas crianças curiosas e cheias de ideia trancados num estúdio com tampas de panela, violões, baldes etc. [sobre Duo Moviola]

Havia algum tipo de aspiração particular nesse disco, tipo revirar o terreno do samba paulistano?
Não. Não queríamos revirar nada. Isso de fazer algo em detrimento de outra coisa não existe em cabeça de artista. Apenas queríamos levar nossa liberdade às últimas consequências. Como estávamos muito próximos por causa do AfroMacarrônico compúnhamos muitas coisas e parte delas não cabia no repertório do Afro. Montamos o Duo Moviola para tocar essas coisas.

Eu percebo em seu trabalho como compositor uma forma muito criativa de reinventar os “Afrosambas”, a música “épica” de PC Pinheiro… Faz sentido?
É subjetivo. Cada um faz uma leitura e são todas muito interessantes. Mas confesso que quando vou fazer música não penso em nada disso, não. Meu objetivo diante da folha em branco é tornar a história clara, comunicar a minha inquietação.

Você sempre parte de uma inquietação? Você é um indivíduo que se interessa pela política. Sua música é política em sentido amplo?
Sim, sem dúvida. Não saberia fazer se não fosse engajado de alguma maneira. Tudo na vida é uma ação política, né!?

Como você acha que isso acontece com relação à música? Como a música pode ser política sem ser necessariamente partidária (ou sendo)? De que modo ela pode interferir na política?
Eu acho que a partir do momento em que você resolver fazer arte, já está tomando partido. Eu acho que não há questão partidária, mas há a questão política. A música age em outra esfera. A da informação, das referências, dos questionamentos, e principalmente da dúvida, da necessidade de aprender. É alimento à curiosidade, instiga, indica caminho, provoca. Tudo isso tem consequência política já que escolher o lugar onde se vai tomar o cafezinho é uma opção política. A pessoa ouve uma música e a partir dela vai atrás de Darcy Ribeiro, descobre Cunhambebe, Manoel de Barros, Antônio Cândido, vai à Mazzaropi, Truffaut, Camus, volta para Fausto Wolff… Não tem fim e tem: consciência política no sentido mais amplo.

Eu acho que a partir do momento em que você resolver fazer arte, já está tomando partido. Eu acho que não há questão partidária, mas há a questão política.

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Outro de seus personagens ricos e trágicos, Damião, como ele surge?
Damião foi assassinado dentro de um centro para tratamento de pessoas com deficiências cognitivas no ceará em 1999. O caso foi a primeira condenação do Brasil na Corte Internacional de Direitos humanos.

A música parte de uma ideia forte: Damião retorna e se vinga daqueles que o assassinaram. Você poderia falar um pouco sobre o imaginário de suas composições? Elas às vezes parecem grandes sonhos…
Legal sua leitura. Mas não sonho nada. Em “Damião” está a vontade de ir à forra diante de uma desumanidade tão grande. Dá neles e quando cansar me chama. O “como” há desumanidades.

O “me chama” é o que há de mais emocionante nessa música… Esse aspecto dramático é algo presente na sua música. Você compôs para teatro também, certo? Existem grandes diferenças entre compor por compor e compor por encomenda?
Sim. Por encomenda é menos sofrido e muitas vezes me salva de períodos entressafra.

Pode falar um pouco mais sobre esse trabalho com teatro? Quais peças e em que circunstâncias foram feitas? É possível escutar a música que vc fez para essas peças? 
João Poleto fez direção musical para vários espetáculos teatrais. Em um deles, me chamou para fazer parte do grupo de músicos que executaria a trilha ao vivo. Topei. Isso foi na Cia Teatro X, em 1994 no espétáculo Torre de Babel de Fernando Arrabal. O espetáculo seguinte seria Zumbi. João estava com agenda lotada e uma viagem em temporada para Paris e me indicou a Paulo Fabiano, o diretor da Cia. Ali começou uma grande amizade e meu trabalho para a Cia Teatro X. Ao todos foram 14 espetáculos entre os que participei tocando e os que dirigi musicalmente com trilha original. A trilha do espetáculo Calígula foi finalista no prêmio Shell de 2003 na categoria melhor trilha original.

É possível ouvir parte dessas músicas. A música “Canção de desmeninar” do disco Orí foi feita para o espetáculo Prometeu Enjaulado. A “Marcha do Homem-Bala” gravada recentemente pela cantora Juliana Amaral em seu disco Açoite, foi feita para o espetáculo Espólio de 2002. A Música “Oyá”, recentemente gravada pelo Metá Metá, fiz para o espetáculo Bando de Maria de 2002, 2003. Em 2009 foi letrada por Kiko Dinucci. Há outras que pretendo gravar em trabalhos futuros. Todos os espetáculos citados acima tiveram direção de Paulo Fabiano e foram produzidos e encenados pela Cia.Teatro X.

Mudando um pouco de assunto, sobre samba: você menciona Luizinho SP como um amigo próximo. Percebo que Luizinho compõe dentro de uma forma que deriva do samba do Cacique de Ramos do final dos anos 70. Existe esse negócio de “samba do Rio”, “samba de SP”? Ou hoje a coisa está mais embaralhada?
Existe, sim. Muito. A maneira de produzir o samba hoje, independente de onde o autor estiver, usa essas características que você citou. Às vezes parece linha de produção. Só troca o cantor. Arranjo, instrumentação são os mesmo. Mas é o seguinte — e este “seguinte” é bem importante: se alguém resolver romper com isso, não estará inventando nem rompendo nada. Um exercício simples é ouvir a obra do Paulinho da Viola. Nela você escuta o samba tocado de várias maneiras. No tampo do violão, com caixa de fósforo, com cavaquinho afinado abaixo dos 440, surdo com afinações diferentes a cada faixa, conversas no estúdio, enfim… A boa discussão é descobrir porque se abandonou essa riqueza toda para pasteurizar o som do gênero.

Não é curioso que o reaparecimento do tal “samba de raiz” coincida com essa pasteurização? Quer dizer, supostamente com o retorno do “samba de raiz” (aqui no RJ, o “samba da Lapa” dos anos 2000) o samba deveria perseverar em sua trajetória de reviravoltas e invenções (Estácio, o samba de breque, o partido alto do Martinho, Candeia, Cacique)? Por que você acha que o samba estagnou em termos de ousadia?
Não acho que tenha estagnado. Uma coisa é discutirmos isso a partir do que acontece em rádio e na grande mídia. Outra coisa é discutir sob o ponto de vista da criação. A criação tem vigor, mas às vezes, se perde no funil da produção e, no meu modo de entender, da prejudicial “direção artística”, que muitas vezes não está na mão do criador e atende às demandas da indústria.

O samba sempre foi de dar voltas. Sempre foi porta-voz de carências e reclamações. Os grandes do samba sempre promoveram transformações através do gênero. A grande questão para as novas gerações é pegar o bastão desse artistas e passar adiante. Afinal eles produziram e transformaram com ferramentas e condições infinitamente menores do que as que temos agora. Seja para transmissão e mesmo sob o aspecto social. Acho uma imbecilidade o tombamento do samba.

E o Mutirão do Samba, como foi essa história?
O Mutirão do samba foi um projeto que deu uma revolucionada no samba aqui em Sampa. Eu e meus amigos Antônio Carlos Moreira e Everaldo F. Silva construímos a ideia. Se baseava praticamente no registro da produção de nossa roda de amigos. Muitos compositores, batuqueiros, gente que cantava bem etc. Nos reuníamos a cada 15 dias, fazíamos uma roda de samba aberta para composições da turma e juntávamos dinheiro. Cada um dava quanto podia. Assim que juntássemos o suficiente, íamos para estúdio e gravávamos.

Era o final da década de 1990. O Pagode tomava conta das rádios. Todos os compositores faziam música e colocavam nas gavetas. Os intérpretes não são acessíveis aos desconhecidos, portanto era complicado enviar música para alguém. Resolvemos fazer nós mesmos o registro das nossas músicas. E melhor: tocadas e cantadas por nós mesmos. Algumas pessoas que fizeram parte do Mutirão levaram a ideia e constituíram à sua maneira projetos parecidos. Caio Prado fundou o Projeto Nosso Samba em Osasco, Pacuera o Samba da Vela na Zona Sul e surgiram vários outros e muitos estão ativos hoje.

Fizeram parte do Mutirão do Samba: Antônio Carlos Moreira, Everaldo F. Silva, João Poleto, Gilmar Martins, Ana Valença, Gordinho, Miltinho Conceição, Pacuera que teve atuação extremamente ativa além de sensacional compositor, Paulinho Ribeiro, Arizinho 7 cordas, Caio Prado, Wanderley Mazzucatto, Lima, Roberto Venâncio, Paulinho Formiga, Adriana Moreira que ainda não cantava, Cristiano José, Heitor, Benê, Dedé, Stevão, Raphael Moreira, que era um garotinho à época, Rosely Moreira, os irmãos Júnior e Pedro Pita, Seu Carlitos que muitas vezes arranjou espaço no CMTC clube para nossas rodas. Eu devo estar esquecendo alguém. E muita gente frequentava, mas é impossível registrar. As rodas do Mutirão eram enormes. Fizemos ao todo 9 gravações de nossas composições. E contamos com a participação de Cristina Buarque e Fabiana Cozza cantando duas. Essas gravações estão guardadas. O projeto terminou antes da conclusão do disco que nunca saiu. Eu havia pensado em falar com todos e soltar em um canal de Soundcloud ou similar, mas depois da morte de Pacuera a coisa perdeu o sentido.

Alguns amigos te chamam de Cuca, algum motivo especial?
Cuca é um apelido caseiro dado por meu avô materno por conta de minha moleira que, nos primeiros mêses de vida, era muito evidente e latejava. Mas o apelido pegou com os amigos por causa do futebol. Ingressei em um time de vázea onde havia um Douglas e este era filho do técnico. Me perguntaram se eu tinha apelido. Para não causar confusão em campo . Respondi Cuca. Ficou. Mas só os amigos próximos me chamam assim.

Ah sim, o futebol… Você mencionou Zico, Adílio… O futebol é um de seus assuntos principais? Ouvi dizer que vc tem um clube, o Madrugada… Quem é o “Jesus, camisa 33”?
Gosto, jogo, mas não é meu tema principal. Dele, o futebol, é possível extrair metáfora riquíssimas e compreensíveis. Meu Time é o Madrugada. Time de amigos músicos.

Observe a foto abaixo.

Periferias de São Paulo – Jardim Fernandes
Foto: Ivan Silva

Ela é de autoria do fotógrafo Ivan Silva. Ele fez um projeto chamado Visão Periférica onde retratou a periferia de São Paulo. A intenção de Ivan era fazer um show musical para expor as imagens. Ele me enviou a foto acima com o convite para que eu compusesse uma música para este retrato. Fiz “Zeirô, Zeirô!!!”. Ampliando a imagem você verá o zagueiro 33.

Como serão os shows de Golpe de Vista? Você pretende levar a mesma roupagem do disco para o palco, ou será diferente?
Sim, tenho feito uns com um trio. Baixo Acústico de Renato Enoki, Flauta e Sax de João Poleto, percussão de Rafael Y. Castro ou Júlio Cesar. Quando houver oportunidade de fazê-lo maior, vou acrescentar um trio de vozes e mais um elemento de harmonia cavaquinho, violão ou piano.

Lá em cima você se referiu ao Brasil como um assombro! A situação política não é favorável. Como você vê a música brasileira nesse contexto?
Com um vigor enorme. A propalada “independência” é voz forte nesses momentos. Em temas, em discursos, nas próprias músicas. A música mais interessante hoje não está nas mãos da indústria, tem liberdade e a utiliza. Tenho certeza de que as reclamações, denúncias e protestos não cessarão graças à estes artistas todos.

A música mais interessante hoje não está nas mãos da indústria, tem liberdade e a utiliza. Tenho certeza de que as reclamações, denúncias e protestos não cessarão graças à estes artistas todos.

Eu ia perguntar algo sobre religião, pois algumas de suas músicas andam por esses caminhos, algumas das mais fortes e conhecidas como “Oranian” e “Oba Iná”… Quer declarar algo sobre esse tema?
Só o que digo sempre: no Brasil, gostar de futebol, carnaval, samba, saber das macumbas, das cachaças, dos santos não é nada demais. Sou filho deste país e tenho comigo, tudo o que forma sua trama estrutural social e de cultura.

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*Professor da Faculdade de Educação/UFRJ, autor de “Tom Zé — Estudando o Samba” (Editora Cobogó, 2014).
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