Crítica de Mauro Ferreira em O Globo

‘Golpe de vista’ lança belo olhar sobre o samba tenso de Douglas Germano


“Meu samba não é de lamento / É muito mais de atormentar”, avisa Douglas Germano, aos 48 anos, através de versos de Golpe de vista, samba que dá nome ao álbum ora lançado pelo cantor e compositor paulistano. Gravado com o toque nervoso do violão tocado pelo próprio Germano, o samba Golpe de vista (Douglas Germano, 2013) é belo cartão-de-visitas para este disco que remete à cadência e à temática da produção áurea de João Bosco e Aldir Blanc em temas como Guia cruzada (Douglas Germano, 2009), Vou S/A (Douglas Germano e Everaldo F. Silva, 2007) e Zeirô, zeirô (Douglas Germano, 2015) – evocação que não apaga a assinatura autoral de Germano.Para quem não liga o nome ao som, Douglas Germano é o Cuca das rodas de Sampa. Um artista que extrapola a roda do samba mais tradicional através de recorrentes conexões com Kiko Dinucci e outros expoentes da fértil cena musical paulistana do século XXI. Violonista e cavaquinhista, Germano é o compositor de Maria da Vila Matilde (Porque se a da Penha é brava, imagina a da Vila Matilde), samba composto em 2014 com o qual Elza Soares levantou a voz contra a violência doméstica praticada contra mulheres do começo, do meio e do fim do mundo em antológico álbum lançado em 2015.

Como enfatizam versos de Pela madrugada (Douglas Germano e Carlinhos Vergueiro, 1998), o samba tenso de Germano parece estar sempre no fio da navalha, na beira do abismo. Contudo, no álbum Golpe de vista, há espaço para o olhar mais delicado do acalanto Canção para ninar Oxum (Douglas Germano, 2007).

Ora metalinguístico como em Iso 9000 (Douglas Germano, 2005), ora inspirado pelos orixás afro-brasileiros como em Mourão que não cai (Douglas Germano, 2007),o samba de Cuca fala das coisas do mundo, às vezes do universo específico da turbulenta cidade de São Paulo (SP), mas com foco sempre universal. Em Golpe de vista, como o próprio artista brada em Lama (Douglas Germano, 1995), esse samba reaparece carregado de histórias de vida, morte, amor e dor. Um samba que ninguém – muito menos um crítico de música – precisa explicar… (Cotação: * * * 1/2)

(Crédito da imagem: reprodução da capa do álbum Golpe de vista. Direção de arte de Delverson Ribeiro. Foto de Arnon Gonçalves)

Link direto: http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/golpe-de-vista-lanca-belo-olhar-sobre-o-samba-tenso-de-douglas-germano.html

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