Crítica em O Globo: Douglas Germano explora o samba com originalidade

Autor de ‘Maria de Vila Matilde’, gravada por Elza Soares, o paulistano lança disco

por Leonardo Lichote
20/09/2016 4:30

RIO — Douglas Germano é do samba. Sua dicção, seu olhar, é de quem vê o gênero de dentro — formado na bateria da Nenê de Vila Matilde, domina um violão sincopado e um cavaquinho nervoso. Mas suas lentes de ver o samba são próprias, sem dogmas. A familiaridade com as propostas do Clube da Encruza — de entortadores como Romulo Fróes, Kiko Dinucci e Rodrigo Campos — é indício claro disso. Há outros tantos espalhados por “Golpe de vista”, seu segundo disco solo (antes de “Orí”, de 2009, ele havia lançado “Duo moviola”, em parceria com Dinucci), disponível no site douglasgermano.com.br.

A abertura do disco, com a faixa-título, já traça o chão de terra sobre o qual flutua Germano — artista que “sabe o que desfaz”, como sintetiza brilhantemente Roberto Didio no texto do encarte. Palmas negras entre o batuque de quintal e o de terreiro (com calor de flamenco) quebram o silêncio. Depois, são cortadas pelo violão de Germano, que (ao lado de sua caixinha de fósforos neurótica) engrena o samba, seguido por seu cavaquinho que o retalha como navalha — um diálogo e uma dinâmica que se reproduzem ao longo do disco, com o eventual reforço da flauta e do sax de João Poleto e do trombone de Pedro Moreira. Na letra, ele define em poesia o que faz ali: “Meu samba é o couro que come/ Se o time de fora virar/ Meu samba é reserva que aquece/ Faltando 5 pra acabar/ (…) Meu samba é um golpe de vista/ Termina onde quer começar/ Meu samba é ruim da cabeça/ Meu samba até manca pra andar”.

“Guia cruzada” (de versos como “Era linha de frente na ala de cuíca/ Já viu muita cabrocha envelhecer”) comprova a dupla João Bosco & Aldir Blanc como referência mais direta na largada do álbum — outras influências aparecem ali, mais ou menos evidentes, como João Nogueira, Candeia e mesmo a bossa nova (visitada com certa ironia em “Iso 9000”, mais um dos sambas sobre samba do disco). A crônica “Maria de Vila Matilde”, gravada pro Elza Soares, mostra o domínio (em música e letra) do ambiente daqueles personagens — assim como “Zeirô, zeirô”, evangelho contado em forma de pelada de várzea.

A lenta “Canção pra ninar oxum” é ponto de respiração no disco, anunciando a segunda metade — de canções que trazem menos da potência de elaboração primitiva dos sambas da primeira parte, mas que sustentam a proposta dos versos de “Lama”: “(…) Um samba que (…)/ Vai ser feito de lama/ Que molda, que quebra/ Mas nunca se acaba”.

Cotação: Bom

link: http://oglobo.globo.com/cultura/musica/critica-douglas-germano-explora-samba-com-originalidade-20140942

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