Quem joga nas 11 dispensa resenhas, arrazoados. Douglas Germano é de chutar de longe, cabecear de olhos abertos. Sabe o que desfaz. O adversário, derrotado pelo próprio golpe de visão, vai cabisbaixo buscar a redonda, que ainda gira sob a rede sem sair do lugar – ajeita o meião e chora sem lágrimas, querendo ficar invisível.

Douglas se coloca então na posição do adversário, nem piedade nem exibição, vestindo sua farda grená de goleiro: colocação de luvas e rito benzedeiro debaixo das traves. Vem o tirambaço de média distância. Move lentamente a cabeça para o lado esquerdo, observa a bola beliscar o travessão. Tiro de meta.

O Golpe não deixa retranqueiro pular faixa. Poucos comparsas neste disco, valentia se mostra mesmo em menor número. Seu hino: plástico fino do maço de cigarros amassado no bolso; espuma de saideira; passos estalando nas calçadas da Vila Matilde; fantasia purpurinada de luar; mapa do tesouro bordado em pano de cuíca.

Operário-despadrão da música do Brasil, arredio às cópias e condescendências de falsa humildade, não segue o jogo. Douglas Germano é um apanhador de sonhos, que mira na sabedoria dos veteranos da Javari.

Fez o que quis com seu Golpe de Vista.

Roberto Didio

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